10 Dicas Sobre Escrever Livros

10 Dicas começando com “A” que falo para mim mesmo quando escrevo um conto ou romance:

  1. aspire: Seja um aspirador de informação, não existe nada não-relacionado à sua história, processe o mundo à sua volta, quanto mais obscura uma relação entre o que está produzindo e a ideia original melhor, por exemplo: Você escreve histórias da idade da pedra, uma sequência em um comercial de carro pode ser um ótimo insumo, se reprocessada para se adequar ao cenário (idade da pedra).
  2. ajuste-se: Desista de fazer a história perfeita, peque pelo excesso de detalhes, de termos de textos, corte o que puder e terá sua obra prima. Não tente ser alguém que já existe, seja você, desapaixone-se pelos clássicos, pelo terror, por determinado(a) autor(a). Não existe insumo bom na horta do vizinho, garimpe as montanhas, busque os horizontes exceda os limites, lá estão as histórias não contadas sobre coisas ainda não acontecidas.
  3. aleatorize: Releia o que esta escrevendo durante a escrita, se você se apaixonar pela história e não conseguir ler ela sem ter a nítida sensação que poderia melhorar ela é porque seu olhar está viciado. Em ilustração e design é um dos principais problemas, o olhar viciado inibe atingir as melhorias ou mudanças que poderiam estar à poucos passos de distância. A solução é simples, se afaste por um tempo ou procure aleatoriedade, faça uma nova versão de seu texto omitindo uma palavra propositalmente, refaça algo de memória, em geral a mente humana prega peças quando tenta lembrar de coisas, provavelmente essas peças são potenciais melhorias que podem te indicar o que deveria ser cortado.
  4. alimente: Engorde palavras em expressões, expressões em frases, frases em parágrafos e parágrafos em contos, quando escrever um romance é porque um conto chegou a se tornar deste tamanho. Engordar algo não é necessariamente colocar etapas desnecessárias, mas criar condições críveis e limites aparentemente intransponíveis sem as condições mínimas, assim desencadeando um fluxo constante de acontecimentos dentro da narrativa. Alimentar é nutrir, não encher de banha. Alguns autores se opõe a escolher expressões mais longas se uma expressão curta diz o mesmo, o que ninguém conta é que esses autores são falantes e nativos da língua inglesa, no português, um idioma mais antigo e mais trabalhado, a sutil escolha de um termo pode denunciar uma nuance de uma intensão oculta, a entonação de uma frase pode mudar um contexto, tornar uma cena mais dramática ou se beneficiar dos verbos subjuntivos para causar incerteza, como em uma ciranda de afirmações duvidosas, o escritor em português tem a responsabilidade de orquestrar essas sutilezas e controlar interpretações indesejadas.
  5. avance: Esteja ciente que nem tudo é rever e reescrever, irrompa o novo como o sol faz com a penumbra da madrugada, simplesmente despele o ovo do mundo sob a luz do olhar do escritor. Não existe charadas, apenas o ato de escrever. Pode parecer obtuso, mas para que a história avance o autor precisa escrever, avançar o mais rápido possível, antever cenas, capítulos inteiros, se um capitulo futuro está em sua mente escreva-o antes, se alguma cena final está latente para ser escrita a escreva, não existe necessidade de contar uma história cronologicamente para o papel, inclusive isso muitas vezes causa os tais bloqueios, se algo te parar, simplesmente pule, bote três pontos (…) e volte ali outro dia, com outros ventos os rumos podem levar você à decisões mais acertadas, avançar impede você de procurar erros, simplesmente se atire para frente, pois na hora de retroceder que você vai arrumar as cagadas e os problemas.
  6. afivele: Coloque “fivelas” nas coisas, mesmo que você não apresente um desfecho lógico para seu conto dadaísta é interessante você ter uma sensação de continuidade em outro conto, fivelas são pontas soltas propositais que te permitem amarrar ou agrupar histórias em arcos, arcos em romances e romances em séries. As fivelas são o átomo de uma história, a primeira e mais importante fivela de uma história é seu dilema central. Não corra apresentando suas fivelas como um um inventário listado, não tenha pressa, apenas deixe claro que existe coerência, mesmo que não-visível em seu mundo.
  7. agrupe: Escrever é muitas vezes um ato impiedoso de classificar coisas, dar rótulos ao singular estado mental de “quero isto, vivo aquilo, mas farei aquele outro”, isto é, não existe cura, não existe certo. Agrupar é a chave para tornar uma história o que ela é, uma história, se algo não contribui para a dissolução, analise, síntese ou processamento do dilema principal esse algo deveria ser retirado da história. Exemplo básico, não tem porque explicar o funcionamento exato de uma propulsão à base de fissão nuclear em um mundo medieval que não usa esse princípio de engenharia, assim como a propulsão das naves em uma ecumonópolis utópica no centro de uma galáxia não poderia funcionar à base de tração animal. Agrupar significa achar os conflitos de coerencia, é a ferramenta mais útil para saber se você esta escrevendo/lendo ficção científica barata ou mal acabada. Construir um mundo nem sempre é necessário (na maioria das vezes não é, construção de mundo é legal em algumas situações, mas todas elas FORA da premissa de resolver o dilema principal então não faz absolutamente diferença nenhuma haver construção de mundo) então quando você precisa que as coisas sejam prototipadas rapidamente, mas também precisa de coerência, agrupe elas. Trabalhar em aglomerados de informação é um modo, eu faço isso usando abas de tabelas com células de “inserção” e células de análise, as análises são onde a mágica acontece: é onde eu faço simulações do que poderia afetar o transcorrer da história e o que impediria da história se auto-resolver antes do primeiro parágrafo (veja o item 8).
  8. avacalhe: Sim. Existe algum jeito de resolver o dilema central sem levar o item mágico até a montanha da perdição na terra do fim do mundo? Se SIM, é isso que deve acontecer na história, agora se é imoral fazer isso, então você esta mirando no dilema errado, seu dilema não deveria ser o “a difícil jornada para a terra do fim do mundo” mas algo como “escolha fácil, vantagem individual X escolha difícil, moralidade intacta” note que só a escolha do personagem principal já poderia acabar com o dilema em um piscar de olhos, então provavelmente para manter o fluxo do dilema talvez seja interessante colocar personagens com conflitos e coalizões diferentes que querem imputar sua própria solução ao caso. Note que é exatamente o que Tolkien faz em Senhor dos Anéis, ele dá a entender que o dilema é “viajar para terras distantes para combater o mal”, mas o dilema dele é na verdade “combater o mal dentro de si mesmo, mesmo que para isso você tenha que viajar para longe”. De alguma maneira avacalhar é fazer ajustes para “arrebentar” os limites da história, normalmente unilateralidade (em termos de forças) é um erro comum de autores iniciantes, que criam uma única força em um único sentido e a única limitação dessa força é a “falta de imaginação do autor”, que não pode justificar porque não esterilizar o planeta central do ninho de insetos extra-terrestres (evidentemente maus pra chuchu) de uma distancia segura (que tal os limites do sistema solar deles) usando asteroides acelerados à velocidades próximas da luz..? A lógica da avacalhação é tão útil que ela invalida praticamente TODOS os livros, filmes e séries de invasões alienígenas já escritos, porque? 1. suponha que você tenha poder de propulsão para viajar livremente entre as estrelas, então é fácil assumir que você quer mais recursos, existe duas maneiras de obtê-lo, de qualquer corpo celeste flutuando no espaço ou garimpando de uma difícil localidade munida de gravidade e atmosferas intensas e incômodas. Então 2. você usando de sua propulsão interestelar, seja ela qual for, resolve pegar o recurso mais comum do sistema solar no lugar mais difícil possível (por causa da gravidade, que faz você gastar um monte de energia inútil apenas elevando toneladas do seu recurso para fora desse ponto do universo) e finalmente, 3. resolve fazer isso SEM USAR sua propulsão como arma, criando um ariete que esterilizaria o planeta primeiro, dando a chance dos (irrelevantes) naturais do planeta fazer um levante. Se você constatar que item 1, 2 e 3 em sequência denunciam que tais seres não são exatamente eficientes, já que desprenderam grandes recursos em um empreendimento que não lhes traria qualquer benefício, prova que avacalhar com a história é uma espécie de filtro, logicamente existem as explicações “mágicas”, o que eu chamo de anedota do “martelo de Thor”, tanto se discute sobre as regras (dos quadrinhos) sobre quem/o quê poderia levantar o martelo (levantar o que é, em relação ao solo.. mas se e o solo se aproximar uma entidade como extra-estelar teria algum problema ao ingerir um mundo com o martelo do Thor nele, queimação? peso no estômago?), na mitologia Thor (o deus) é forte, tão forte que só ele consegue levantar o martelo, simples assim e nada indica que alguém não-digno, mas com recursos, pudesse elevar o martelo ele mesmo. Avacalhar é realmente extrapolar os limites daquela história, é pressupor que se alguém tem um raio desmaterializador ele provavelmente vai usá-lo contra um inimigo.
  9. apanhe: Nem tudo são flores, as críticas existem e há quem saiba fazê-las e quem não saiba, se houver alguém lendo seus escritos é ótimo, uma grande vantagem frente ao vazio universal. A humanidade vive na expectativa de contato com alguma outra civilização alienígena, mas nada se escuta, o universo é mais silencioso que uma floresta escura com predadores à espreita, então mesmo críticas completamente infundadas já são bem-vindas, alguém se deu o trabalho de notar que seu texto existe, comemore. E caso pare de se lamentar pelas criticas assertivas, mas ácidas, volte para o item 3.
  10. alcance: Quer assumir padrões profissionais? Continue repetindo tudo até que os padrões profissionais lhe pareçam algo amador. É uma estrada longa e sem acostamentos, onde se você parar você morre, não tem como voltar então apenas avance olhando o horizonte que não se aproxima mais do que no seu primeiro passo da jornada. O segredo da excelência é ter consciência que nunca se alcança excelência, o padrão é sempre algo que pode agradar uns, comover outros, angariar o amor e devoção de muitos, mas nunca trazer paz de espírito para o autor furioso. As palavras vão continuar brotando como em uma ferida aberta e você continuará escrevendo como da primeira vez que começou a escrever.
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