Criando (ou não) Personagens e Personalidades

Personagens são criações literárias que traduzem a realidade que vivenciam como simulacros de entidades.

Ora personagens não necessariamente precisam coincidir com expectativas humanas de interação,um animal, um alienígena, um robô, um super cérebro eletrônico matrioska, um fantasma, uma entidade extraplanar, um ciborgue… enfim, qualquer coisa que interaja por vontade própria em qualquer nível direto ou indireto com um ou mais dilemas da narrativa.

Personagens obrigatoriamente interagem pelos seu próprio princípio, poder, com o dilema. Um carro que leva os personagens até a cena do crime, não é um personagem, pois sua operação mesmo que autônoma requer os personagens para ser instalado na narrativa e se dirigir (ou ser dirigido) para seu ponto de encontro com o dilema.

Agora, cruzamos um linear, o que não é um personagem, ou possui características de persona, mas conserva estética, comportamento, autonomia e todo tipo de reação, mas não se relaciona com dilema algum, é puramente um item animado de cenário, não um personagem.

Em RPG (Role Playing Games) é comum fazer essa distinção (um pouco obtusa) entre PC e NPC, (respectivamente Player Character [Personagem Jogável] e Non Player Character [Personagem Não Jogável]). Considero essa distinção obtusa porque ela agrupa personagens de jogadores X personagens que o narrador do jogo representa.

Esse agrupamento torna o dilema ainda mais obscuro, sendo que nem sempre o objetivo da aventura é completar uma missão (matar inimigos e saquear [conhecido como Rack and Slack no inglês]), alguns jogos de RPG enfatizam o terror, a negociação, a defesa de interesses e agendas fora do interesse primal dos PCs. Por isso é interessante que o escritor na confecção da narrativa entenda que o norte são os dilemas, eles são a origem e destino de toda saga (entenda minha visão de saga).

Então um personagem de uma narrativa que não interaja com o dilema não é um personagem, na minha concepção, é um objeto de cena, um item, um sujeito de papelão, com uma existência decorativa na história.

Outra consideração importante é que múltiplos monômeros podem criar um aspecto de múltiplos personagens, mas são unidades de um enxame, por exemplo quando uma cena descreve um batalhão, ainda que personagens isolados possam estar inseridos nesse batalhão, pode ser criado um mar de seres que se comportam como uma unidade e portanto naquele momento eles são uma só entidade.

Como tais entidades-enxame são difíceis de serem descritas em ordem específica, acaba se criando uma intitulação para todo o batalhão. Esse mecanismo permite o escritor tratar a unidade como personagem criando sombras (leia o conceito de sombra aqui) e sagas.

Em coração valente, apesar de Willian Wallace, interpretado por Mel Gibson, ser o centro das atenções, as cenas entre os exércitos se confrontando em tomadas panorâmicas dão profundidade à cena, mesmo que se você atentar verá que os movimentos dessas tropas de figurantes nem sempre são tão bem coreografados como o dos personagens principais, isso se deve ao efeito visual do enxame.

Quando em um grande grupo de objetos nosso olhar tende a criar uma espécie de rótulo do movimento e da identidade média das partes, como se o fato de dez braços subirem e descerem em determinado movimento fosse o suficiente para concluirmos que esses braços estão armados, mas você precisa apenas que um pequeno número deles realmente esteja armado e posicionado em pontos de destaque. É a versão em movimento da regra de Gestalt do princípio da auto compleição da forma, na qual nosso olhar tende a somar pistas sobre a forma oculta de um objeto e terminá-lo com base em experiências visuais anteriores.

Personagens dentro da atmosfera de uma história assumem características específicas, o nome disso é conformidade. É bastante incomum que um personagem em uma sociedade pós-escassez adotasse uma solução “mais barata” ou “mais fácil”, então quando Dr. Manhattan foge da Terra para pensar em Marte, o limite dessa fuga foi meramente arbitrado pela falta de imaginação dos roteiristas, ora, sendo uma criatura com magnitude suficiente para ser membro de uma civilização K3 na escala Kardashev (saiba do que estou falando aqui) é praticamente impossível que tal entidade se opusesse a elevar o nível de todos os entes de sua espécie para a mesma magnitude que ele, ao invés de lidar com o problema da solidão infindável de ser o único ser com um QI acima do QI somado da espécie toda.

Se o descobridor do fogo ou da escrita cuneiforme fizesse o mesmo estaríamos ainda morrendo com 15 anos de idade e vivendo em pequenas sociedades caçadoras e coletoras.

Em outras palavras conformidade é quando um personagem não comete idiotices porque o autor não sabe como operar tal entidade. Se o dilema maior de um personagem é o como a humanidade é efêmera e ele pode simplesmente converter a humanidade em uma versão pós-escassez utópica com intelecto e disponibilidade de energia equivalente à dele próprio, seria absurdo que ele não o fizesse. Tão absurdo quanto se o inventor da penicilina jogasse fora sua invenção porque teria medo do que pessoas mal intencionadas poderiam injetar em pacientes inocentes. Pense em Santos Dumont, mesmo tendo relatado que se sentia infeliz com o uso dado ao avião nas grandes guerras, jamais disse que se arrependera de presentear o mundo com sua brilhante patente. Então, ainda achando que personagens vivendo em sociedades pós-escassez se negariam a compartilhar sua experiência própria?

Bem, quando algo é do nosso interesse a primeira coisa que tentamos fazer é anunciar para todo o mundo que nosso interesse é a melhor coisa que poderia acontecer a alguém, the gathering, ou a convocação de mais fãs, é uma premissa evolutiva, afinal se mais espécies se beneficiam de um recurso infinito menos civilizações entram em choque e mais adeptos ocorrem à nova corrente de pensamento, então, um abraço para aqueles alienígenas avançados que decidem pavimentar suas vias galácticas bem onde está a Terra, provavelmente eles iriam querer nos colocar no mapa deles, nos transformar em amigos ou apreciadores de sua cultura, mesmo que duvidosa (por questões técnicas ameríndios usam celular, mas não hesitam em manter sua religião e linguagem, o humano não deixa de ser humano por evoluir tecnicamente e aprimorar suas condições de existência).

Portanto Dr. Manhattan não é um herói, é um vilão. Seu dilema não é “virei o equivalente a um deus e estou sozinho em uma terra de primatas insensatos”, se dilema provavelmente pertencente a gama do “não tenho nada que me prenda ao planeta Terra, seus nativos não me entenderão” quando você tem um universo inteiro à sua disposição e decide ficar onde não tem sequer interesse isso trás à tona o principal problema dessa entidade, ele é tão infantil em suas decisões como os humanos que se diz distante e mais, personagens inteligentes não resolvem cálculos em segundos ou desperdiçam potencial mantendo-se em dogmas e regras infantis, personagens inteligentes se espraiam até os limites de seus poderes, dobram as regras e usam as dobras para alcançar mais longe que seus autores prefeririam.

É o velho deus ex machina (leia aqui sobre o que é isso). Precisamos por um limite no personagem, vamos por nele um código moral inquebrável, o problema é quando o escritor usa como muleta o “a experiência mudou o personagem” e a personalidade perspicaz e audaz do ávido cientista é suplantada por uma bocal personalidade niilista desprovida de um pingo do comportamento provável que alguém passou pela experiência dele passaria, isto é, o personagem descobriu o fogo 2.0, sabe como fazer e sabe o que deve ser (ironicamente) feito para que a experiência não falhe com mais ninguém, ao invés de inaugurar uma nova era de transhumanismo e multiplicar por infinito sobre infinito seus patéticos esforços ele se dedica à barganhar tempo com a namorada e fugir para Marte porque humanos querem que ele use terno em uma entrevista.

Adoro o universo de Watchmen e adoro o Dr. Manhattan, independente disso, me apavora a nossa incapacidade (considerando que não vejo muitos militantes da coerência na ficção científica e quadrinhos) de perceber as limitações tão humanas de um personagem que se propõe sobre-humano.

Porque eu centro narrativas sobre os ossos sagrados do dilema, porque personagens cujo dilema foi estipulado de maneira coerente tendem a ter seus problemas ajustados para suas realidades e deixa de fazer sentido ficar limitando o personagem com bobeiras como “tio Ben” ou “transhumanismo é perigoso, os transhumanos não são humanos”, é o mesmo motivo para o qual as pessoas cobriam espelhos em tempestades elétricas poucas décadas atrás, balela, mitologia, medo do eclipse. Consideremos por um segundo que você descubra o sentido da vida (42) e que por acaso você em todo o universo é o ser mais maduro que existe (afinal seu super-cérebro foi capaz de fazer uma simulação acelerada do cosmos em dois segundos sem fritar), qual a primeira coisa que você faz?

  1. Foge para Marte porque quer andar pelado (WTF)
  2. Conta para sua mãe

Note que as duas alternativas são bastante infantis e nem mesmo são excludentes entre si, mas SIM, perceba que a segunda alternativa é exatamente o que NUNCA se faz, porque se os alienígenas não vierem nos matar, não dá dilema (como o conhecemos), se dr Manhattan não se tornar a criatura viva que pudesse criar um reator de fusão a frio e acabar com a escassez na humanidade adeus criminalidade, adeus combate inútil ao crime com spandex pinicando os genitais, “end of all dilema as we know”.

Como então escrever narrativas em CPE (Civilizações Pós-Escassez)?

Ótima pergunta, filho, as pistas apontam para os dilemas, mudamos a atmosfera, o estilo, os personagens, mas repetimos a mesma dinâmica de dilemas em toda história, “jornada do herói” não passa do mitema (leia sobre o que diabos é um mitema aqui) do Perseu e seus doze trabalhos, o comonfolk basicão que é enviado em uma busca para salvar X (bote no X: humanidade, vilarejo, condado, mundo da magia, rainha menina, país das maravilhas, dignidade, paz de espírito pós-suicídio da cônjuge [com direito a ver finalmente rosto dos filhos no final], mundo dos trolls, o último dragão, a jóia do Nilo, a espada sagrada, o Discworld, o agrupamento humano em Rama, a missão, um grupo de médicos perdido na África em guerra, o soldado Ryan, a voz dos deuses de Krynn, a galáxia, o universo, a dimensão, a dimensão X, a mansão X, o reino, o império, a ilha, o mundo dos jogos…).

Se você não percebeu ainda eu simplesmente não considero que a arte da escrita está livre da regra de ouro a qual toda arte mesmo que extrema (pintar usando molho caseiro enquanto pula de paraquedas) se submete, coerência.

O caminho da coerência começa no dilema.

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