Dilema, o prato principal

Dilema, ou se você for um pesquisador científico o Problema, é a força motriz que gera o projeto.

Sem o dilema Darth Vader não constrói estrela da morte, Bilbo não sai do condado, Menelau não vai à Tróia.

Em nosso universo o dilema é o que Hegel diria que é o embate entre as frentes que culminarão com a síntese, mas além de síntese, o objetivo do dilema é o dilema em si, não a síntese, a síntese é o resultado inevitável do embate das forças.

Dilema é como chamo (sim eu chamo coisas, o blog é meu) a partícula-deus da criação de todo universo literário, a célula-mãe de todas as personalidades envolvidas na trama.

O dilema costuma a ter uma representação material para onde as almas desesperadas dos personagens olham com fulgia urgência, seja um anel, um trono de espadas, uma nave de improbabilidade, ela é a causa das animosidades que criaram o dilema, quase nunca a solução do dilema está no objeto, mas no que seu personagem deve fazer com o objeto.

Nem sempre é necessário que exista uma materialização do dilema, mesmo porque uma história possui dilemas aparentes e dilemas densos, quanto mais profundo é o dilema denso de uma história mais é necessário refletir e separar o dilema da história. Na trilogia Matrix o dilema aparente é o de que somos “prisioneiros de tecnologia e temos sempre uma chance de sair”, mas o dilema real é o de que não “se pode escapar da tecnologia” assim como não se pode fugir da própria linguagem.

Charles Baudelaire repudiou Matrix (e a homenagem que fizeram ao seu livro no filme um, acho que as irmãs Wachowski se precipitaram e deveriam ter colocado a referencia à Baudelaire no fim do terceiro filme, isso viria de encontro com o entendimento de que Matrix não possui saída e de que o real é uma ilusão contada pela virtualidade) porque justamente o filósofo entendeu o primeiro nível do dilema, que é de que há escapatória da tecnologia e para a filosofia de Baudelaire nunca chegaremos no deserto do real, de fato, no terceiro filme de Matrix, no diálogo entre o oráculo e o arquiteto fica evidente que nem mesmo Matrix sai de Matrix, o sistema está dentro dele mesmo tempo suficiente para não saber mais o que é ou deveria ser o real, não há mais real. Justamente o ponto proposto por Baudelaire.

Em Senhor dos Anéis não é a destruição do anel que representa o dilema, mas todos os atalhos que a humanidade, os elfos os hobbits e o gollum poderia(m) fazer com tal item, prover imortalidade para o povo humano, tal como os elfos, trazer a glória de Valinor para perto da Terra Média, restaurar a utopia de Númenor. Tanto poderia ser feito e ali mora o dilema de todas as frentes em embate franco pelo poder sombrio que Sauron “perdeu” (fala sério, é óbvio que o plano dele SEMPRE foi impor ao mundo um dilema “distribuindo” parte de seu poder entre forças potencialmente concorrentes, até hoje corporações fazem o MESMO em bolsas de ações). O dilema de Senhor dos Anéis não é exatamente bem X mau, é algo como “poder, mesmo que em mãos bem intencionadas, corrompe?”, o comportamento de Frodo ao carregar o anel dá pistas que sim, mas é inegável que o autor deixe em aberto, se o poder fosse deliberadamente entregue para uma criatura acostumada ao mesmo nível de poder e potencialmente boa, como Tom Bombadil, o que aconteceria? Isso o autor não responde porque seu dilema só pode ser testado em seres corruptíveis pelo poder, Tom Bombadil já possui poder e portanto não poderia ser corrompido por ele (acabando de modo meio broxante o dilema de um mundo todo e um anel de poder).

Dilema é o trigo e o fermento do bolo que é a história, enquanto ele é a substância que “cria” a necessidade de haver algo em um mundo literário ele faz esse mundo crescer em volta do dilema. É como dar a volta em uma montanha, para isso você acaba criando um mundo de horizonte à horizonte no processo.

Identificar o dilema cervical, ou principal dilema, de uma história é mais do que traduzir um pedido de socorro na língua dos homens-pássaros, é mais do que saber que Reagan riu da cena em que foi mencionado em De Volta para o Futuro ou saber se HAL não seria realmente melhor astronauta que qualquer humano, se não houvesse interferência humana na missão(!).

Identificar o dilema é escavar um esqueleto que o autor tentou sepultar até de si mesmo, Hemingway não analisava suas próprias obras, ele considerava que uma vez que se despedia de um livro não queria mais saber dele, ele se desatrelava da história, de despia da visceral atração por mergulhar nas águas escuras do dilema

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