Quedas, Voices in my Head

Quedas.

Quando em House of Cards o personagem, Underwood, de Kevin Spacey, olha para a câmera arregaça a quarta parede (como ele fez em Beleza Americana) e explica o quão idiotas são os outros congressistas pelas óbvias escolhas falhas deles (ou as sombras de suas pífias tentativas de resolver suas vidas, leia sobre sombras aqui), ele está fazendo uma queda.

Queda é quando o narrador, ou um personagem empresta sua voz para esclarecer algo a mais na narrativa que pode facilitar o entendimento ou a mobilidade do leitor. Um leitor móvel se sente mais confortável para inferir o futuro da narrativa, deduzir quem vai sentar na cadeira grande de Westeros, ou se os alienígenas de Falling Skies um dia farão sentido.

Nem sempre uma queda exige quebrar a quarta parede, congelar a cena e olhar para a câmera, um cameo de alguns detalhes colocou em Stranger Things, no mapa das séries de impacto sobre o imaginário popular (de quem tem Netflix, o que não é exatamente tão popular assim, o serviço não é tão massivo assim quanto eles gostam de demonstrar), uma sondada nos brinquedos dos pequenos personagens revela coisas que estão enterradas no subconsciente de toda pessoa que viveu na década de oitenta, mesmo que muitas dessas coisas tenham sobrevivido e digivoluido para outras coisas (tipo o D&D que na série eles jogam alguma versão remasterizada não-a-mesma-mas-quase-a-mesma-coisa que deve ironicamente ter o nome de Dragão da Masmorra.. #sqn).

Na linha de raciocínio de coisas estranhas, narrativas às vezes usam de conceitos complexos para incutir informações adicionais sem lotar a memória de trabalho dos leitores, em Senhor dos Anéis o autor enfiou uma quantidade absurda de informação adicional sobre o mundo que ele criou em todo o canto possível da narrativa, não contentes, editores colocaram mais cento e dez páginas no fim do terceiro livro com o gentil título de “apêndice” onde aparece a pronúncia correta de dezenas de termos em Quenia e Sindarin, trocentas árvores genealógicas de antepassados que não afetam a história nem de longe. Bom, gosto de Tolkien, gosto de world building, mas construir uma narrativa não exige WB e nem um apêndice apresentando o WB.

Se você for bom em WB, pode ser que não seja um narrador tão bom assim, criar narrativas é muito menos que criar um mundo, mas muito mais que enciclopediar uma realidade.

Quedas são momentos em que as informações adicionais serão de fato usadas em prol de movimentar o dilema almejando alguns objetivos de alguns personagens, é fundamental a diferença que Amélie Poulain em suas quedas surreais tem, a queda lá é o dilema, o segredo dessa narrativa é que ao passear pelo imaginário hipotético da personagem você mergulha no dilema dela, ela é invisível, como muitos seres humanos, a maioria de nós e seu clamor é o grito silencioso da imaginação de Amélie. O dilema é tão massivo e intransponível que tudo se torna escapismo, a narrativa se esvaindo como a própria realidade percebida pela personagem, ela é louca? Sã? Nem um nem outro, você não pode definir quem é louco ou são pelo que a pessoa pensa ou pensa que pensa, mas é isso que psiquiatria e psicologia se desafiam.

Enfim queda é quando a voz baixa do narrador lhe diz o que é importante em uma cena, ou quando a câmera filma continuamente vários segundos da pizza de Walter White no telhado, a tensão daquilo se visto e no final do episódio você entender como a pizza chegou lá é o tipo de impacto causado por uma queda.

No comments yet.

Deixe uma resposta