Sombras, uma Luz Sobre as Consequências

Sombras são os dilemas causados por um ou mais personagens que buscam solucionar os dilemas fundamentais de uma narrativa.

Quanto mais complexo é o dilema que o personagem tenta solucionar maior a chance dele criar dilemas secundários ao fazer isso.

Excelente exemplo são as lógicas de tempo circular de Startrek, De Volta Para o Futuro e Exterminador do Futuro. Nos três acontecem situações em que a causa de um evento é a consequência do mesmo. O primeiro dilema só existe porque houve uma tentativa de evitá-lo.

A sombra em um aspecto simples pode ser um efeito colateral do uso de personagens para se resolver o dilema, então é em uma narrativa madura praticamente inevitável.

Narrativas sem sombras costumam a apresentar personagens de papelão, insubstanciais que tem vidas de pouca expressão sobre o dilema que enfrentam, são as consequências negativas da tentativa de concertar as coisas que alimentam as sombras.

Então, histórias bonitinhas e sem sombras não tem sal, não tem gosto, não tem pele, área de contato, isso porque sem as injustiças não haveria paralelo com a limitada realidade humana.

Tire as sombras e uma narrativa vira uma caricatura de si mesma, como uma sucessão infinita de séries policiais cujos episódios tem pouca ou nenhuma relação entre eles e as consequências boas ou más dos personagens não afetam em nada a trama.

As sombras podem atrapalhar uma narrativa plana, ou platônica, onde personagens vivem em uma versão utópica de uma realidade insossa focada apenas em dilemas internos. Narrativas assim em geral são comuns como “still life” ou também usadas para experiências emocionais, as “romantic wonderlands”.

Sombras podem ser benéficas para a resolução do dilema, o senso de justiça de um herói pode ser sua maior força, mas é também sua maior fraqueza.

Lembrando que sombras não podem ser confundidas com dilemas em estágios (o problema evolui ou muda conforme a narrativa avança) ou dilemas dinâmicos (o problema muda, nem sempre em uma progressão lógica ou previsível).

Sombras sempre são causadas pela ação de personagens que estejam envolvidos em resolver o dilema (o que as vezes é justamente o aumento do dilema em si). Sauron, por exemplo, sonda as planícies com seu olho que nunca fecha para encontrar seu anel, ele se comunica ativamente com o portador do anel, mas não interfere ativamente na jornada de Frodo, sua sombra pode ser a arrogância ou tudo, inclusive a não interferência, pode ser sua ação real para conduzir Frodo para Mordor, o que acaba sendo a sombra de Sauron: “um herói trará o anel, a decisão sobre o poder corrompe ou não é do herói”.

As sombras são a louça do jantar. Índices inegáveis da tentativa de resolver algo podendo causar consequências inesperadas, ou até desejáveis. Quando Vogons decidem pavimentar uma rodovia intergaláctica bem onde a Terra está o único sobrevivente, Arthur Dent, vive uma inesperada jornada, Arthur tem a sombra de que suas escolhas não são suas, na verdade nada que Arthur faz é ação dele, até mesmo ele usa dessa sombra para resolver seus problemas durante a difícil jornada para recuperar a Terra.

Sombras sempre são causadas pelos personagens, mesmo que você não tenha acesso a esses personagens. Os magos do passado distante do mundo de A Espada da Verdade polvilharam o mundo com os restos de seus combates mitológicos, mas sem essas sombras, Richard jamais poderia completar seus feitos nem no primeiro livro, quanto mais quando se aprofundasse no dilema principal de toda a série, essa é mais um exemplo de lógica circular, afinal boa parte do que Richard está passando é justamente por causa desses magos.

Em Avatar, o filme com Smurfs alienígenas, não o Air Bender, a falta de aceitação das limitações do próprio corpo leva o protagonista a se sentir mais impelido a abraçar o corpo azul (sintético) como seu real corpo, enquanto o seu corpo humano é uma prisão. O dilema da narrativa ganha força pela sombra do personagem, sendo crucial para o humano “trair” (hohoho) sua espécie se tornando a versão invertida da Pocahontas (infelizmente só em outro mundo para os nativos ganharem das Companhias das Índias Orientais). Apesar da tentativa o dilema em Pandora apresenta apenas dois níveis, a cruzada pessoal do humano tentando superar sua limitação, mesmo que para isso ele tenha que deixar de ser humano (transhumanismo rules), logo se torna a cruzada Smurf quando eles decidem repelir os avanços dos sedentos capitalistas.

Não que eu considere o dilema de Avatar ruim, mas eu espero que um filme assim rococó tenha mais dúvidas que certezas e lance sombras mais longas sobre as ações da retirada forçada dos humanos. Não que eu torça para as corporações do mal (hahaha, francamente), mas unilateralidade é o fim de um dilema, a morte da narrativa em si mesma, quando o vazio existencial toma conta dos personagens e eles começam literalmente a brincar de explodir as cabeças contra o vidro a prova de bisbilhoteiros da quarta parede. Então Avatar simplifica para índiosXcowboys com os vaqueiros sendo postos para correr. “O que queria de Avatar?” Não quero nada, só aponto que o dilema foi para as cucuias quando a coisa se tornou tribo da revanche.

Um filme que faz o caminho oposto é V de Vingança, inspirado nos quadrinhos homônimos de Frank Miller. V era um cara solitário que queria se vingar de um governo intolerante e totalitário (qualquer relação com a situação política nos EUA é coincidência, afinal a narrativa se passa em Londres), para isso ele desenvolveu um refinado plano que culmina com a explosão do parlamento britânico e o fim do domínio tirano. V é por inteiro a sombra do seu governo e o governo é um personagem ativo em todos os seus aparatos e mecanismos visíveis na história, desde a mídia controlada, as forças de segurança, ao controle social e ideológico, V como consequência da tirania é justamente um extremista, uma doença pesada exige um remédio pesado e uma vingança pessoal se torna uma revolução social onde não é um governo que é derrubado, mas um povo que foi reerguido.

 

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