Mostre, não Diga

Escrever a narrativa exige esforço, paciência e abandonar convenções e confortos, quando outros podem se entregar ao deleite da zumbificação e esfregar os olhos pelas telas frias dos gadgets, escritores estreitam os olhos e abrem as mentes em distantes voos pelos seus mundos misteriosos.

Quando alguém decora máximas de autores famosos a fim de condensar fórmulas de escrita é o momento que eu sou obrigado a me levantar e dizer: narrativa não tem regra.

Se todos escreverem usando uma fórmula ou máxima teremos uniformidade, o que em termos artísticos é a esterilização, o cinza, o morno.

Então, “mostrar não dizer” que leio as vezes comentado sobre algum autor, é quando se tenta criar sua narrativa sem adjetivar e no lugar disso substantiva-se a respeito, isto é: Ao invés de um personagem ser descrito como violento, o autor se força a descrever toda uma cena de violência propiciando essa percepção no leitor.

O ponto é que vê-se então uma dose absurdamente alta de cenas enfiadas em uma histórias sem nexo, apenas com a intenção de fundamentar a narrativa, ao invés da casa de doces da bruxa, temos toda uma explicação em flashback de como a criatura cozinhou sua casa em um grande caldeirão e edificou as paredes enfadonhamente, isso se o autor não se ver forçado a colocar uma receita de bolacha, cara, era só dizer, é de doces, uma casinha feita de doces!

A busca por maturidade na forma como se narra é excelente, um processo silencioso que ocorre a partir do esforço do autor. Agora, pondero se isso, de mostrar, não descrever é a nossa terrível limitação frente à contração da realidade literária, ou se realmente precisamos utilizar desse tipo de premissa para maturar nosso estilo de escrita.

Narrativa requer dilema bem estruturado, isso não é uma regra, é uma questão de existência da narrativa, é o mínimo necessário para que algo exista como narrativa, estilo mais “ação” onde o foco acaba sendo o mostrar das coisas ou um “intimismo” onde o autor tem o poder de penetrar fundo nos devaneios de cada um dos seus personagens não é nem de longe algo que deveria ser discutível como certo ou errado.

Dilemas que claramente exigem conhecer-se os adjetivos que floreiam a realidade não deveriam ser limitados por máximas estilísticas totalmente importadas.

Personagens (dentro do meu conceito de personagens), suas reações (que chamo de sagas) também.

Me aprofundo no viés das terríveis repercussões dos atos impensados de personagens enfrentando os dilemas, as sombras. Ainda que uma história pode conviver sem sombras.

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